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quarta-feira, 22 de março de 2017

A Cabana!

A Cabana
William P. Young




A Cabana
William P. Young

Descrição

A filha mais nova de Mackenzie Allen Philip foi raptada durante as férias em família e há evidências de que ela foi brutalmente assassinada e abandonada numa cabana. Quatro anos mais tarde, Mack recebe uma nota suspeita, aparentemente vinda de Deus, convidando-o para voltar áquele cabana para passar o fim de semana. Ignorando alertas de que poderia ser uma cilada, ele segue numa tarde de inverno e volta a cenário de seu pior pesadelo. O que encontra lá muda sua vida para sempre. Num mundo em que religião parece tornar-se irrelevante, 'A Cabana' invoca a pergunta: 'Se Deus é tão poderoso e tão cheio de amor, por que não faz nada para amenizar a dor e o sofrimento do mundo?' As respostas encontradas por Mack surpreenderão você e, provavelmente, o transformarão tanto quanto ele.





Leia um trecho

Prefácio

Quem não duvidaria ao ouvir um homem afirmar que passou um fim de semana inteiro com Deus e, ainda mais, em uma cabana? Principalmente naquela cabana. Conheço Mack há pouco mais de 20 anos, desde o dia em que nós dois fomos à casa de um vizinho para ajudá-lo a embalar feno para suas poucas vacas. A partir de então a gente se encontra compartilhando um café – ou, para mim, um chá tailandês superquente, com soja. Nossas conversas nos dão um prazer profundo e são sempre salpicadas de muito riso e de vez em quando de uma ou duas lágrimas. Francamente, quanto mais velhos ficamos, mais a gente se dá bem, se é que você me entende. O nome completo dele é Mackenzie Allen Phillips, mas a maioria das pessoas o chama de Allen. É uma tradição de família: todos os homens têm o primeiro nome igual, mas são conhecidos pelo nome do meio, provavelmente para evitar a ostentação do I, II e III ou Júnior e Sênior. Assim, ele, o avô, o pai e agora o filho mais velho têm o nome de Mackenzie, mas só Nan, a mulher dele, e os amigos íntimos o chamam de Mack. Ele nasceu em uma fazenda do Meio-Oeste, numa família irlandesaamericana de mãos calejadas e regras rigorosas. Ainda que aparentemente religioso e exageradamente rígido, seu pai bebia muito, sobretudo quando a chuva não vinha ou quando vinha cedo demais, e quase sempre entre uma coisa e outra. Mack nunca fala muito sobre o pai, mas quando o menciona a emoção abandona seu rosto, como se fosse uma maré vazante, deixando seus olhos sombrios e sem vida. Pelo pouco que Mack me contou, sei que seu pai não era o tipo de alcoólatra que cai num sono rápido e feliz, e sim um bêbado perverso que batia na mulher e depois pedia perdão a Deus. A coisa chegou a tal ponto que, aos 13 anos e com certa relutância, Mack abriu o coração para um líder da igreja durante um encontro de jovens. Dominado pelo clima do momento,Mack confessou chorando que nunca fizera nada para ajudar a mãe nas várias vezes em que testemunhara o pai bêbado lhe dar uma surra até deixá-la inconsciente. O que Mack não pensou foi que seu confessor freqüentava a mesma igreja que seu pai. Quando chegou em casa, o pai o esperava na varanda e a mãe e as irmãs não estavam.Mais tarde,Mack ficou sabendo que elas tinham sido mandadas à casa da tia May para que o pai pudesse ter liberdade para dar ao filho rebelde uma lição inesquecível.Durante quase dois dias, amarrado ao grande carvalho nos fundos da casa, ele foi castigado com um cinto e com versículos da Bíblia todas as vezes que o pai acordava de sua bebedeira e largava a garrafa. Duas semanas depois, quando enfim conseguiu ficar em pé, Mack simplesmente se levantou e foi embora de casa. Mas antes de partir colocou veneno de rato em cada garrafa de bebida que conseguiu encontrar na fazenda. Depois desenterrou de perto da latrina externa a pequena lata onde guardava todos os seus tesouros: uma foto da família em que o pai estava meio afastado, uma figurinha de beisebol do Luke Easter de 1950, uma garrafinha com mais ou menos 30ml de Ma Griffe (o único perfume que sua mãe havia usado), um carretel de linha e duas agulhas, um pequeno jato F-86 da Força Aérea americana em metal fundido e todas as economias de sua vida: 15 dólares e 13 centavos. Esgueirou-se pela sala e enfiou um bilhete debaixo do travesseiro da mãe, enquanto o pai roncava, curtindo mais um porre. O bilhete dizia simplesmente: “Um dia espero que você possa me perdoar.” Jurou que nunca mais olharia para trás e não olhou – durante um longo tempo. Treze anos é muito pouco, porém Mack não tinha muitas opções e se adaptou rapidamente. Ele não fala muito sobre os anos seguintes. A maior parte foi passada fora do país, trabalhando pelo mundo, mandando dinheiro para os avós, que o repassavam à mãe. Acho que num desses países distantes chegou a pegar em armas e participar de algum conflito terrível; desde que o conheço, ele odeia a guerra com um fervor sinistro. Seja lá o que for que tenha acontecido, aos 20 e poucos anos foi parar num seminário na Austrália. Quando Mack se fartou de teologia e filosofia, retornou aos Estados Unidos, fez as pazes com a mãe e as irmãs e se mudou para o Oregon, onde conheceu Nannete A. Samuelson e se casou com ela. Neste mundo de faladores, Mack é pensador e fazedor. Não diz muita coisa, a não ser que alguém pergunte, o que pouca gente faz. Quando fala, dá a impressão de ser uma espécie de alienígena que vê a paisagem das idéias e experiências humanas de modo diferente de todas as outras pessoas. O que acontece é que as coisas que ele diz causam um certo desconforto em um mundo onde a maioria das pessoas prefere escutar o que está acostumada a ouvir, o que freqüentemente não é grande coisa. Os que o conhecem geralmente gostam muito de Mack, desde que ele mantenha guardados seus pensamentos. Porque as coisas que Mack diz nem sempre deixam as pessoas muito satisfeitas com elas mesmas. Uma vez Mack me contou que quando era jovem costumava se abrir com mais liberdade, mas admitiu que a maior parte dessas conversas era um mecanismo de sobrevivência para encobrir suas feridas. Freqüentemente acabava derramando a dor sobre quem estivesse por perto. Disse que tinha prazer em apontar as falhas das pessoas e humilhá-las para manter seu sentimento de falso poder e controle. Nada muito elogiável. Enquanto escrevo estas palavras, reflito sobre o Mack que sempre conheci: um sujeito bastante comum e certamente sem nada de especial, a não ser para os que o conhecem de verdade. Vai fazer 56 anos e não chama a atenção, está ligeiramente acima do peso, é meio careca, baixo e branco – uma descrição que serve para muitos homens dessas redondezas. Você provavelmente não o notaria numa multidão nem se sentiria incomodado sentado ao seu lado enquanto ele cochila no trem que o leva à cidade para a reunião semanal de vendas. Faz a maior parte de seu trabalho num pequeno escritório em sua casa na Wildcat Road.Vende alguma engenhoca de alta tecnologia que eu não pretendo entender: trecos eletrônicos que de algum modo fazem tudo andar mais depressa, como se a vida já não fosse rápida demais. Você só percebe como Mack é inteligente quando, por acaso, escuta um diálogo dele com um especialista. Já vivi algumas situações dessas quando a língua falada mal parecia com a nossa e eu me via lutando para captar os conceitos que jorravam como um rio de jóias despencando de uma cachoeira. Ele consegue falar com inteligência sobre quase tudo e, apesar da força de suas convicções, Mack tem um modo gentil e respeitoso que deixa você manter as suas. Seus assuntos prediletos são Deus, a Criação e por que as pessoas acreditam em determinadas coisas. Seus olhos se iluminam e seu sorriso repuxa os cantos dos lábios para cima. De repente, como se fosse um garotinho, o cansaço se dissolve e ele rejuvenesce, praticamente incapaz de se conter. Mas, ao mesmo tempo, Mack não é muito religioso. Parece ter uma relação de amor e ódio com a religião e talvez até com Deus, que ele imagina como um ser mal-humorado, distante e altivo. Pequenas gotas de sarcasmo escorrem às vezes pelas rachaduras de seu reservatório, como dardos cortantes cheios de veneno. Embora algumas vezes nós dois vamos juntos à mesma igreja, dá para ver que ele não se sente muito à vontade lá. Mack está casado com Nan há pouco mais de 33 anos – na maior parte do tempo, eles são felizes. Diz que ela salvou sua vida e pagou um preço alto por isso. Por algum motivo que não dá para compreender, Nan parece amá-lo agora mais do que nunca, apesar de eu ter a sensação de que ele a magoou de algum modo terrível nos primeiros anos. Acho que, assim como a maior parte das nossas feridas tem origem em nossos relacionamentos, o mesmo acontece com as curas, e sei que quem olha de fora não percebe essa bênção. De qualquer modo, Mack se casou. Nan é a argamassa que mantém juntos os ladrilhos de sua família. Enquanto Mack lutou num mundo com muitos tons de cinza, o dela é principalmente preto e branco. O bom senso é tão natural para Nan que ela nem consegue perceber o dom que isso representa. Ter uma família a impediu de realizar seu sonho de ser médica, mas ela se destacou como enfermeira e obteve um reconhecimento considerável em seu trabalho com pacientes terminais com câncer. Enquanto o relacionamento de Mack com Deus é amplo, o de Nan é profundo. Esse casal contraditório teve cinco filhos de beleza incomum. Mack gosta de dizer que todos pegaram a beleza dele, “... porque Nan ainda conserva a dela”. Dois dos três meninos já saíram de casa: Jon, casado há pouco, trabalha como vendedor de uma empresa local, e Tyler, recém-formado na faculdade, está fazendo mestrado. Josh e uma das duas garotas, Katherine (Kate), cursaram a escola comunitária local. E a que chegou por último é Melissa – ou Missy, como gostávamos de chamá-la. Ela... bem, você vai conhecer melhor alguns dos filhos de Mack ao longo deste livro. Os últimos anos foram... como é que posso dizer... notavelmente peculiares. Mack mudou: agora está ainda mais diferente e especial. Durante todos os nossos anos de convívio ele sempre foi bastante gentil e amável, mas desde a estada no hospital há três anos ficou... bem, melhor ainda. Tornou-se uma daquelas raras pessoas que estão totalmente à vontade dentro da própria pele. E eu também me sinto mais à vontade perto dele do que de qualquer outra pessoa. Cada vez que nos separamos, tenho a sensação de ter tido a melhor conversa da minha vida, mesmo que eu tenha falado mais. E, a respeito de Deus,Mack não é mais simplesmente amplo. Ficou muito profundo. Mas o mergulho custou caro. Os dias de hoje são muito diferentes de há sete ou oito anos, quando a Grande Tristeza entrou em sua vida e ele quase parou de falar.Mais ou menos nessa época, e por quase dois anos, nossos encontros foram interrompidos, como se por um acordo mútuo não verbalizado. Eu só via Mack de vez em quando na mercearia ou, mais raramente ainda, na igreja. E, embora em geral trocássemos um abraço educado, não falávamos de muita coisa importante. Para ele era até difícil me encarar. Talvez não quisesse entrar numa conversa capaz de arrancar a casca de seu coração ferido. Porém tudo isso mudou depois de um acidente feio com... Mas lá vou eu outra vez botando o carro na frente dos bois.Vamos chegar lá no devido tempo. Basta dizer que estes últimos anos parecem ter devolvido a vida de Mack e tirado o fardo da Grande Tristeza. O que aconteceu há três anos mudou totalmente a melodia de sua vida e é uma canção que mal posso esperar para tocar. Apesar de se comunicar bastante bem verbalmente,Mack não se sente seguro sobre sua capacidade de escrever – algo que ele sabe que me apaixona. Por isso, perguntou se eu escreveria esta história, a história dele “para as crianças e para a Nan”. Queria uma narrativa que o ajudasse a expressar para eles a profundidade de seu amor e que os ajudasse a entender o que havia se passado em seu mundo interior. Você conhece o lugar: é onde você está sozinho – e talvez com Deus, se acredita Nele. É claro que Deus pode estar lá, mesmo que você não acredite. Isso seria bem o jeito de Deus. Não é à toa que ele é chamado de O Grande Intrometido. A história que você vai ler é resultado de uma luta minha e do Mack para, durante muitos meses, colocar em palavras o que ele viveu. Tem um lado um pouco... digamos,muito fantástico. Não vou julgar se algumas partes são verdadeiras ou não. Prefiro dizer que,mesmo que algumas coisas não possam ser cientificamente provadas, talvez sejam verdadeiras. Mas preciso afirmar honestamente que fazer parte desta história me afetou de modo profundo, desvendando detalhes meus que eu desconhecia. Confesso que desejo desesperadamente que tudo o que Mack me contou seja verdade. Na maioria das vezes eu me sinto próximo dele, mas em outras – quando o mundo visível de concreto e computadores parece ser o real – perco o contato e tenho dúvidas. Algumas observações finais.Mack gostaria que eu lhe transmitisse o seguinte recado: “Se você odiar esta história, desculpe, ela não foi escrita para você.” Mas eu quero acrescentar: afinal, talvez tenha sido. O que você vai ler é o máximo que Mack consegue recordar daquilo que aconteceu. Esta é a história dele, não a minha. Por isso, nas poucas vezes em que apareço, vou me referir a mim mesmo na terceira pessoa – e do ponto de vista de Mack. As vezes a memória pode ser uma companheira enganosa, em especial com relação ao acidente, e eu não ficarei surpreso se, apesar de nosso esforço conjunto para contar a história com exatidão, alguns fatos e lembranças aparecerem distorcidos nestas páginas. Não é intencional. Garanto que as conversas e eventos foram registrados do modo mais fiel possível, de acordo com as lembranças de Mack. Portanto, por favor, tente não se aborrecer com ele. Como você verá, essas coisas não são fáceis de contar. – WILLIE 1 Uma confluência de caminhos Duas estradas se bifurcaram no meio da minha vida, Ouvi um sábio dizer. Peguei a estrada menos usada. E isso fez toda a diferença cada noite e cada dia. Larry Norman (pedindo desculpas a Robert Frost) Março desatou uma torrente de chuvas depois de um inverno de secura anormal. Uma frente fria desceu do Canadá e foi contida por rajadas de vento que rugiam pelo desfiladeiro, vindas do Leste do Oregon. Ainda que a primavera certamente estivesse logo ali, depois da esquina, o deus do inverno não iria abandonar sem luta seu domínio conquistado com dificuldade. Havia um cobertor de neve recente nas Cascades, e agora a chuva congelava ao bater no chão do lado de fora da casa. Motivo suficiente para Mack se enroscar com um livro e uma sidra quente, aconchegando-se no calor do fogo que estalava na lareira. Mas, em vez disso, ele passou a maior parte da manhã no computador. Sentado confortavelmente no escritório de casa, usando calças de pijama e uma camiseta, ele deu telefonemas de vendas. Parava com freqüência, ouvindo o som da chuva cristalina tilintar na janela e vendo o acúmulo vagaroso mas constante do gelo lá fora. Estava se tornando inexoravelmente prisioneiro do gelo em sua própria casa – e com muito prazer. Há algo agradável nas tempestades que interrompem a rotina. A neve ou a chuva gélida nos liberam subitamente das expectativas, das exigências de resultados e da tirania dos compromissos e dos horários.Ao contrário da doença, esta é uma experiência mais coletiva do que individual. Quase podemos ouvir um suspiro de alívio erguer-se em uníssono na cidade próxima e no campo, onde a natureza interveio para dar uma folga aos exaustos seres humanos. Todos os afetados pela tempestade são unidos por uma desculpa mútua. De súbito e inesperadamente o coração fica um pouco mais leve. Não serão necessárias desculpas por não comparecer a algum compromisso. Todos entendem e compartilham a mesma justificativa, e a retirada súbita de qualquer pressão alegra a alma. É claro que as tempestades também interrompem negócios, e, embora umas poucas empresas tenham um ganho extra, outras perdem dinheiro – o que significa que existem os que não sentem júbilo quando tudo fecha temporariamente. Mas é impossível culpar alguém pela perda de produção ou por não conseguir chegar ao escritório. Mesmo que a situação só dure um ou dois dias, de algum modo cada pessoa se sente dona do seu mundo simplesmente porque aquelas gotinhas de água congelam ao bater no chão. Até as atividades comuns se tornam extraordinárias. Ações rotineiras se transformam em aventuras e freqüentemente são vivenciadas com maior clareza.No fim da tarde,Mack se encheu de agasalhos e saiu para lutar com os quase 100 metros da comprida entrada de veículos que vai até a caixa de correio. O gelo havia convertido magicamente essa tarefa simples do dia-a-dia numa batalha contra os elementos: levantou o punho em contestação à força bruta da natureza e, num ato de desafio, riu na cara dela. O fato de que ninguém notaria nem se incomodaria com seu gesto pouco importava para ele – só o pensamento o fez rir por dentro. As pelotas de chuva gelada ardiam no rosto e nas mãos enquanto ele subia e descia com cuidado as pequenas ondulações do caminho.Mack se divertia pensando que parecia um marinheiro bêbado indo com cuidado para o próximo boteco. Quando você enfrenta a força de uma tempestade de gelo, não caminha exatamente com ousadia, demonstrando antes de finalmente conseguir abraçar a caixa de correio como se fosse um amigo desaparecido há muito. Parou para apreciar a beleza de um mundo engolfado em cristal. Tudo refletia luz e colaborava para o brilho crescente do fim de tarde. As árvores no campo do vizinho tinham-se coberto com mantos translúcidos, e agora cada uma parecia única ao seu olhar. Era um mundo radiante e, por um momento, seu esplendor luzidio quase retirou, ainda que por apenas alguns segundos, a Grande Tristeza dos ombros de Mack. Demorou quase um minuto para arrancar o gelo que havia lacrado a tampa da caixa de correio. A recompensa por seus esforços foi um único envelope onde havia apenas seu primeiro nome escrito à máquina do lado de fora; sem selo, sem carimbo e sem remetente. Curioso, ele rasgou a borda do envelope, tarefa que não foi fácil, pois os dedos começavam a se enrijecer de frio. Dando as costas para o vento que lhe tirava o fôlego, finalmente conseguiu arrancar do ninho um pequeno retângulo de papel sem dobra. A mensagem datilografada dizia simplesmente: Mackenzie Já faz um tempo. Senti sua falta. Estarei na cabana no fim de semana que vem, se você quiser me encontrar. Papai Mack se enrijeceu enquanto uma onda de náusea percorria seu corpo e, com igual rapidez, se transmutava em ira. Esforçava-se para pensar o mínimo possível na cabana e, mesmo quando ela lhe vinha à mente, seus pensamentos não eram agradáveis nem bons. Se aquilo era uma piada de mau gosto, a pessoa realmente havia se superado. E assinar “Papai” só tornava a coisa ainda mais horrenda. – Idiota – resmungou, pensando em Tony, o carteiro: um italiano exageradamente amigável, com grande coração mas pouco tato. Por que ele entregaria um envelope tão ridículo? Nem estava selado. Mack enfiou com raiva o envelope e o bilhete no bolso do casaco e virou-se para começar a deslizar na direção de casa. Os sopros fortes do vento, que a princípio haviam diminuído de intensidade, agora o empurravam, encurtando o tempo necessário para atravessar a minigeleira que engrossava sob seus pés. Estava se saindo bem, obrigado, até chegar à entrada de veículos, que se inclinava um pouco para baixo e à esquerda. Sem qualquer esforço ou intenção, começou a aumentar a velocidade, deslizando com sapatos que tinham praticamente tanta firmeza quanto um pato pousando num lago gelado. Com os braços balançando loucamente na esperança de, não sabia como, manter o equilíbrio, Mack se viu adernando de encontro à única árvore de tamanho substancial que ladeava a entrada de veículos – a única cujos galhos mais baixos ele havia cortado uns poucos meses antes. Agora ela se erguia ansiosa para abraçá-lo, seminua e aparentemente desejosa de uma pequena retribuição. Numa fração de segundo, ele escolheu o caminho da covardia e tentou despencar no chão, permitindo que os pés escorregassem – o que eles de qualquer modo fariam. Melhor ter a bunda dolorida do que arrancar lascas do rosto. Mas a descarga de adrenalina o fez compensar exageradamente, e em câmara lenta Mack viu os pés se erguerem à sua frente, como se puxados para cima por alguma armadilha da selva. Bateu com força, primeiro com a nuca, e escorregou até um monte na base da árvore brilhosa, que pareceu se erguer acima dele com uma expressão de presunção e nojo, além de uma certa decepção. O mundo pareceu ficar escuro por um instante. Ele permaneceu ali deitado, tonto e olhando o céu, franzindo os olhos enquanto a precipitação gelada esfriava rapidamente seu rosto vermelho. Durante uma pausa ligeira, tudo pareceu estranhamente quente e pacífico, com sua cólera momentaneamente nocauteada pelo impacto. – Agora, quem é o idiota? – murmurou consigo mesmo, esperando que ninguém estivesse olhando. O frio se entranhava rapidamente pelo casaco e pelo suéter, e Mack soube que a chuva gelada que estava ao mesmo tempo se derretendo e se congelando embaixo dele iria logo se tornar um enorme desconforto. Gemendo e sentindo-se muito velho, rolou apoiando-se nas mãos e nos joelhos. Foi então que viu a marca de um vermelho forte traçando sua jornada desde o ponto de impacto até o destino final. Como se gerado pela súbita percepção do ferimento, um martelar surdo começou a subir pela nuca. Instintivamente ele procurou a fonte das batidas de tambor e trouxe de volta a mão ensangüentada. Com o gelo áspero e o cascalho afiado cortando as mãos e os joelhos, Mack meio engatinhou, meio escorregou, até conseguir chegar a uma parte plana da entrada de veículos. Com um esforço considerável, finalmente pôde ficar de pé e avançar cautelosamente, centímetro a centímetro, em direção à casa, humilhado pelos poderes do gelo e da gravidade. Assim que entrou,Mack se livrou metodicamente e do melhor modo que pôde das camadas de roupa de frio, com os dedos meio congelados reagindo com quase tanta destreza quanto se fossem porretes enormes na ponta dos braços. Decidiu largar aquela bagunça molhada e manchada de sangue ali mesmo na entrada, onde a deixara cair, e avançou dolorosamente até o banheiro para examinar os ferimentos. Não existia dúvida de que o caminho gelado havia vencido. Do talho na nuca escorria sangue ao redor de algumas pedrinhas ainda encravadas no couro cabeludo. Como havia temido, um galo significativo tinha se formado, emergindo como uma baleia-corcunda rompendo as ondas de seu cabelo ralo. Enquanto tentava ver a nuca com um pequeno espelho de mão que refletia uma imagem invertida do espelho do banheiro, Mack achou difícil fazer um curativo. Depois de uma curta frustração, desistiu, incapaz de obrigar as mãos a irem na direção certa e sem saber qual dos dois espelhos mentia para ele. Tateando com cuidado ao redor do talho encharcado, conseguiu tirar os pedaços maiores de cascalho, até que a dor ficou forte demais para continuar. Pegou um pouco de pomada de primeiros socorros e tapou o ferimento do melhor modo que pôde. Em seguida amarrou uma toalha de rosto na nuca usando um pouco de gaze que encontrou numa gaveta do banheiro. Olhando-se no espelho, pensou que se parecia um pouco com um marinheiro rude saído do romance Moby Dick. Isso o fez rir, depois se encolher. Teria de esperar até que Nan chegasse em casa para receber qualquer atendimento médico verdadeiro, uma das muitas vantagens de ser casado com uma enfermeira. De qualquer modo, sabia que quanto pior fosse a aparência, mais solidariedade iria receber. Se prestarmos bastante atenção, sempre conseguiremos descobrir alguma compensação no sofrimento. Engoliu dois analgésicos para diminuir a dor e mancou até a porta da frente. Nem por um instante Mack se esqueceu do bilhete. Remexendo na pilha de roupas molhadas e ensangüentadas, finalmente o encontrou no bolso do casaco. Olhou, voltou para o escritório, achou o número da agência de correio e ligou. Como esperava, Annie, a matronal chefe do correio e guardiã dos segredos da população local, atendeu. – Oi, por acaso o Tony está aí? – Oi, Mack, é você? Reconheci sua voz. – Claro que reconheceu. – Desculpe, mas o Tony ainda não voltou. Na verdade, acabo de falar com ele pelo rádio. Está na metade da Wildcat, nem chegou à sua casa ainda. O que você quer que eu diga a ele, se conseguir voltar vivo? – Na verdade você já respondeu à minha pergunta. Houve uma pausa do outro lado. – O que há de errado,Mack? Ainda está fumando muito bagulho, ou só faz isso nas manhãs de domingo para conseguir suportar o culto na igreja? – Ela começou a rir, encantada com o brilho de seu próprio senso de humor. – Bom, Annie, você sabe que eu não fumo bagulho. Nunca fumei e nem quero. – Claro que Annie sabia disso, mas Mack não podia se arriscar. Não seria a primeira vez em que o senso de humor de Annie se transformaria numa boa história que logo se tornaria um “fato”. Ele podia ver seu nome sendo acrescentado à corrente de orações da igreja. – Tudo bem, eu falo com o Tony outra hora, não é importante. – Então está certo, e fique dentro de casa, que é mais seguro. Você sabe, um cara velho como você pode perder o senso de equilíbrio com o passar dos anos. Do jeito que as coisas andam, talvez Tony não consiga chegar à sua casa. – Obrigado, Annie. Tentarei lembrar do seu conselho. Falo com você mais tarde. Tchau. – Sua cabeça latejava cada vez mais, pequenos martelos de forja batendo no ritmo do coração. “Estranho”, pensou, “quem ousaria colocar algo assim na nossa caixa de correio?” Os analgésicos ainda não haviam surtido o efeito desejado, mas eram suficientes para embotar o início de preocupação que ele estava sentindo, e de repente Mack ficou muito cansado. Pousou a cabeça na mesa e pensou que havia acabado de cair no sono quando o telefone o acordou com um susto. – Ah... alô? – Oi, amor. Parece que você estava dormindo. – Ele sentiu na voz de Nan uma animação incomum, mesmo percebendo a tristeza encoberta que espreitava logo abaixo da superfície de cada conversa.Mack ligou a luminária da mesa e olhou o relógio, surpreso ao constatar que dormira por cerca de duas horas. – Ah, desculpe. Acho que cochilei um pouco. – É, você parece meio grogue. Tudo bem? – Tudo. – Mesmo estando quase escuro lá fora, Mack podia ver que a tempestade não havia amainado. Tinha até depositado mais uns 5 centímetros de gelo. Os galhos das árvores pendiam baixos e ele sabia que alguns acabariam se partindo com o peso, principalmente se o vento aumentasse. – Tive um pequeno entrevero na entrada de veículos quando fui pegar a correspondência.Mas, fora isso, tudo bem. E você? – Ainda estou na casa da Arlene e acho que eu e as crianças vamos passar a noite aqui. É sempre bom para a Kate estar com a família... parece que isso restaura um pouco o seu equilíbrio. – Arlene era a irmã de Nan, que morava do outro lado do rio, em Washington. – De qualquer modo, está escorregadio demais para sair. Espero que melhore de manhã. Queria ter chegado em casa antes de o tempo ficar tão ruim, mas o que se há de fazer? – Houve uma pausa. – Como está tudo por aí? – Bem, está absolutamente, espantosamente lindo e muitíssimo mais seguro de olhar do que de andar, acredite. Eu certamente não quero que você tente chegar aqui nessa situação. Nada se mexe. Acho que nem o Tony conseguiu trazer a correspondência. – Achei que você já tinha pegado a correspondência. – Não, achei que o Tony tinha passado e fui pegar. E – Mack hesitou, olhando o bilhete sobre a mesa – não havia nenhuma correspondência. Liguei para Annie e ela disse que o Tony provavelmente não ia conseguir subir a ladeira. De qualquer modo – ele mudou rapidamente de assunto para evitar mais perguntas –, como está a Kate? Houve uma pausa e depois um longo suspiro. Quando Nan falou, sua voz saiu num sussurro, e Mack percebeu que ela estava tapando o bocal do outro lado. – Mack, eu gostaria de saber. Por mais que eu tente, não consigo. É como se eu falasse com uma pedra. Quando tem gente da família por perto, ela parece sair um pouco da casca, mas depois some de novo. Simplesmente não sei o que fazer. Rezei e rezei para que Papai nos auxiliasse a encontrar um modo de ajudá-la, mas... – Nan parou de novo – parece que ele não está ouvindo. Era assim. Papai era o nome com que Nan se referia a Deus e expressava o deleite que lhe provocava sua amizade íntima com ele. – Querida, tenho certeza de que Deus sabe o que está fazendo. Tudo vai dar certo. – Essas palavras não lhe trouxeram conforto, mas ele esperava que pudessem aliviar a preocupação que sentia na voz dela. – Eu sei – Nan suspirou. – Só gostaria que ele andasse mais depressa. – Eu também – foi tudo o que Mack conseguiu dizer. – Bom, você e as crianças fiquem aí, onde é seguro. Dê lembranças à Arlene e ao Jimmy e agradeça a eles por mim. Espero ver você amanhã. – Eu também. Se cuide e me ligue se precisar de alguma coisa. Tchau. Mack sentou-se e olhou o bilhete. Era confuso e doloroso tentar evitar a cacofonia de emoções perturbadoras e de imagens sombrias que nublava sua mente – um milhão de pensamentos viajando a um milhão de quilômetros por hora. Por fim desistiu, dobrou o bilhete, enfiou-o numa pequena lata que ficava sobre a mesa e apagou a luz. Conseguiu encontrar algo para aquecer no microondas, depois pegou alguns cobertores e travesseiros e foi para a sala de estar. Ao olhar rapidamente para o relógio, viu que o programa de Bill Moyer tinha acabado de começar; era seu programa predileto, que ele tentava não perder nunca. Moyer era uma das pouquíssimas pessoas que Mack adoraria conhecer: um homem brilhante e franco, capaz de exprimir com clareza incomum uma compaixão intensa pelas pessoas e pela verdade. Quase sem pensar e sem afastar os olhos da televisão,Mack estendeu a mão para a mesinha de canto, pegou um porta-retrato com a imagem de uma menininha e o apertou contra o peito. Com a outra mão puxou os cobertores até o queixo e se aninhou mais fundo no sofá. Logo o som de roncos suaves encheu o ar, enquanto o aparelho exibia um estudante no Zimbábue, que fora espancado por falar contra o governo. Mas Mack já havia saído da sala para lutar com seus sonhos. Talvez essa noite não houvesse pesadelos, só visões, quem sabe, de gelo, árvores e gravidade. 2 A escuridão se aproxima Nada nos deixa tão solitários quanto nossos segredos. – Paul Tournier Durante a noite um vento sudoeste soprou pelo vale de Villamette, libertando a paisagem do aperto gélido da tempestade. Em menos de 24 horas instalou-se um calor de início de verão. Mack dormiu até tarde, um daqueles sonos sem sonhos que parecem durar apenas um instante. Quando finalmente se arrastou do sofá, surpreendeu-se ao descobrir que as loucuras do gelo haviam se dissolvido tão depressa, mas deliciouse ao ver Nan e as crianças aparecerem menos de uma hora depois. Primeiro veio a bronca previsível por ele não ter posto as roupas sujas de sangue na lavanderia. Em seguida, uma quantidade adequada de exclamações que acompanharam o exame que ela fez no ferimento da cabeça. O cuidado agradou mensamente a Mack e logo Nan o havia limpado, remendado e alimentado. Mas não houve menção ao bilhete sempre presente em sua mente. Ele ainda não sabia o que pensar a respeito e não queria envolver Nan em algum tipo de piada cruel. As pequenas distrações, como a tempestade de gelo, eram uma trégua bem-vinda que afastava por instantes a presença terrível de sua companheira constante: a Grande Tristeza, como ele a chamava. Pouco depois do verão em que Missy desaparecera, a Grande Tristeza havia pousado nos ombros de Mack como uma capa invisível, mas quase palpável. O peso daquela presença embotava seus olhos e curvava seus ombros. Até os esforços para afastá-la eram exaustivos, como se os braços estivessem costurados nas dobras escuras do desespero que agora, de algum modo, tinha se tornado parte dele. Comia, trabalhava, amava, sonhava e brincava sempre usando essa vestimenta, como se fosse um roupão de chumbo. Andava com dificuldade pela melancolia tenebrosa que sugava a cor de tudo. Às vezes ele podia sentir a Grande Tristeza se apertando lentamente ao redor do peito e do coração, como os anéis esmagadores de uma jibóia, espremendo líquido dos seus olhos até ele achar que não existia mais nenhuma gota. Em outras ocasiões sonhava que seus pés estavam presos em lama pegajosa, enquanto tinha rápidos vislumbres de Missy correndo pelo caminho que descia pela floresta à frente dele, o vestido vermelho de algodão leve enfeitado pelas flores silvestres que piscavam entre as árvores. Ela não fazia qualquer idéia da sombra escura que a seguia. Ainda que Mack tentasse freneticamente gritar, nenhum som saía e ele sempre chegava tarde demais e impotente demais para salvála. Sentava-se empertigado na cama, o suor pingando do corpo torturado, enquanto ondas de náusea, culpa e arrependimento rolavam sobre ele como um maremoto surreal. A história do desaparecimento de Missy infelizmente não é como outras que a gente costuma ouvir. Tudo aconteceu no fim de semana do Dia do Trabalho, o último brado de alegria do verão antes de outro ano de escola e rotinas de outono. Mack decidiu corajosamente levar as três crianças menores para um último acampamento no lago Walowa, no Nordeste do Oregon. Nan já estava inscrita num curso de reciclagem em Seattle, um dos dois garotos mais velhos havia retornado à faculdade e o outro estava trabalhando como monitor num acampamento de verão.Mas Mack confiava na própria capacidade de combinar corretamente conhecimentos de sobrevivência ao ar livre e habilidades maternas. Afinal, Nan era uma boa professora e ele, um aluno aplicado. O sentimento de aventura e a euforia do acampamento tomaramconta de todos, e a casa virou um redemoinho de atividades. Num determinado ponto da confusão, Mack decidiu que precisava de uma trégua e se acomodou na cadeira do papai depois de expulsar Judas, o gato da família. Já ia ligar a TV quando Missy entrou correndo, segurando sua caixinha de plástico transparente. – Posso levar minha coleção de insetos para acampar com a gente? – perguntou. – Quer levar seus bichos? – grunhiu Mack, sem prestar muita atenção. – Pai, eles não são bichos. São insetos. Olha, tenho um monte aqui. Relutante, Mack deu atenção à filha, que, vendo-o concentrado, começou a explicar o conteúdo do seu “baú” do tesouro. – Olha, tem dois gafanhotos. E olha aquela folha, é a minha lagarta, e em algum lugar por aí... Ali! Está vendo minha joaninha? E tenho uma mosca em algum lugar e umas formigas. Enquanto ela fazia o inventário da coleção,Mack se esforçou ao máximo para demonstrar que estava atento, balançando a cabeça. – Então – terminou Missy. – Você deixa eu levar? – Claro que sim, querida. Talvez a gente possa soltá-los na floresta quando estivermos lá. – Não pode, não! – veio uma voz da cozinha. – Missy, você tem de deixar a coleção em casa, querida. Acredite, eles estão mais seguros aqui. – Nan esticou a cabeça pela quina da parede e franziu a testa amorosamente para Mack, enquanto ele encolhia os ombros. – Eu tentei, querida – sussurrou ele para Missy. – Grrr – rosnou Missy. E, sabendo que a batalha estava perdida, pegou a caixa e saiu. Na noite de quinta-feira a van estava lotada e a carreta-barraca de reboque presa, com luzes e freios testados. Na sexta de manhã, depois de um último sermão de Nan para os filhos sobre segurança, obediência, escovar os dentes de manhã, não pegar gatos com listras brancas nas costas e todo tipo de outras coisas, todos saíram: Nan para o norte e Mack e os três mosqueteiros para o leste. O plano era voltar na noite de terça-feira, véspera do primeiro dia de aula. Mack e os filhos pararam na cachoeira Multnomah para comprar um livro de colorir e lápis de cor para Missy e duas máquinas fotográficas descartáveis e à prova d’água para Kate e Josh. Depois decidiram subir a curta distância da trilha até a ponte diante da cachoeira.Antigamente havia um caminho rodeando o poço principal e entrando numa caverna rasa atrás da queda-d’água, mas infelizmente ele tinha sido bloqueado pelas autoridades do parque por causa da erosão. Missy adorava o lugar e implorou ao pai para contar a lenda da bela jovem índia, filha de um chefe da tribo Multnomah. Foi preciso um pouco de insistência, mas por fim Mack cedeu e recontou a história enquanto olhavam para a névoa que envolvia a cachoeira. A história falava de uma princesa, a única filha que restava ao pai idoso. O chefe adorava a filha e escolheu com cuidado um marido para ela: um jovem chefe guerreiro da tribo Clatsop que a amava. As duas tribos se juntaram para as comemorações do casamento. Mas, antes do começo da festa, uma doença terrível começou a matar muitos homens. Os anciãos e os chefes se reuniram para discutir o que poderiam fazer contra a doença devastadora que dizimava rapidamente seus guerreiros. O curandeiro mais velho contou que seu pai, perto de morrer, já bem idoso, havia previsto uma doença terrível que mataria seus homens, uma doença que só poderia ser vencida se a filha de um chefe, pura e inocente, oferecesse de boa vontade a vida pelo seu povo. Para realizar a profecia, ela deveria subir voluntariamente num penhasco acima do Grande Rio e pular para a morte nas rochas abaixo. Uma dúzia de jovens, todas filhas dos vários chefes, foram trazidas diante do Conselho. Depois de demorados debates, os anciãos decidiram que não poderiam pedir um sacrifício tão precioso, sobretudo porque não sabiam se a lenda era verdadeira. Mas a doença continuou se espalhando implacável entre os homens, e finalmente o jovem chefe guerreiro, o futuro esposo, caiu doente. A princesa, que o amava muito, soube no fundo do coração que algo precisava ser feito e, depois de lhe dar um leve beijo na testa, afastou-se. Demorou toda a noite e todo o dia seguinte para chegar ao local indicado na lenda, um penhasco altíssimo acima do Grande Rio e das terras mais além.Depois de rezar e se entregar ao Grande Espírito, ela cumpriu a profecia sem hesitar, pulando para a morte nas rochas abaixo. Nas aldeias, na manhã seguinte, os doentes se levantaram saudáveis e fortes. Houve grande júbilo e comemoração, até que o jovem guerreiro descobriu que sua adorada noiva havia sumido. À medida que a percepção do que acontecera se espalhava rapidamente entre o povo, muitos empreenderam a jornada até o lugar onde sabiam que iriam encontrá-la. Enquanto se reuniam em silêncio ao redor do corpo destroçado na base do penhasco, seu pai, tomado pelo sofrimento, gritou para o Grande Espírito, pedindo que o sacrifício dela fosse lembrado para sempre. Nesse momento, do lugar de onde ela havia pulado começou a jorrar água, transformando-se numa névoa fina que caía aos pés deles, lentamente formando um lago maravilhoso. Normalmente,Missy adorava a história. A narrativa possuía todos os elementos de um verdadeiro conto de redenção, não muito diferente da história de Jesus que ela conhecia tão bem. Falava de um pai que amava a filha única e de um sacrifício anunciado por um profeta. Por causa do amor, a jovem escolheu dar sua vida para salvar o noivo e as tribos da morte certa. Mas, dessa vez, Missy ficou quieta quando a história terminou. Virou-se imediatamente e dirigiu-se para a van, como se dissesse: “Tudo bem, não tenho mais nada para fazer aqui. Vamos indo.” Deram uma parada rápida para um lanche junto ao rio Hood, depois voltaram para a auto-estrada que iria levá-los pelos últimos 115 quilômetros até a cidade de Joseph. O lago e o local de acampamento ficavam poucos quilômetros depois de Joseph. Quando chegaram, arrumaram tudo – não exatamente como Nan teria preferido, mas do jeito que lhes pareceu melhor. Naquele fim de tarde, sentado entre as três crianças que riam assistindo a um dos maiores espetáculos da natureza, o coração de Mack foi subitamente inundado por uma alegria inesperada. Um pôr-do-sol de cores e padrões brilhantes destacava as poucas nuvens que haviam esperado nas coxias para se tornarem os atores centrais nessa apresentação única. Ele era um homem rico, pensou, em todos os sentidos que mais importavam. Quando acabaram de limpar os restos do jantar, a noite havia caído. Os cervos tinham ido para o lugar onde dormem. Seu turno foi substituído pelos encrenqueiros noturnos: guaxinins, esquilos e tâmias, que perambulavam em bandos procurando qualquer recipiente ligeiramente aberto. Os Phillips sabiam disso por experiência própria. A primeira noite que tinham passado nesses locais de acampamento lhes custara quatro dúzias de barras de cereal, uma caixa de chocolate e todos os biscoitos de creme de amendoim. Antes que ficasse muito tarde, os quatro deram uma pequena caminhada para longe das fogueiras e das lanternas do acampamento, até um lugar escuro e quieto onde pudessem se deitar e olhar maravilhados a Via-Láctea, espantosa e intensa sem a poluição das luzes da cidade. Mack era capaz de ficar horas deitado olhando aquela vastidão. Sentiase incrivelmente pequeno, mas em paz. De todos os lugares em que a presença de Deus se fazia sentir, era ali, rodeado pela natureza e sob as estrelas, um dos mais tocantes. Quase podia ouvir o hino de adoração que os astros faziam ao Criador, e em seu coração relutante ele participava do melhor modo possível. Então voltaram ao acampamento e, depois de várias viagens aos banheiros, Mack enfiou os três na segurança de seus sacos de dormir. Rezou brevemente com Josh antes de ir até onde Kate e Missy estavam esperando. Quando chegou a vez de Missy rezar, ela quis conversar com o pai. – Papai, por que ela teve de morrer? Mack demorou um momento para descobrir do que Missy estava falando. Percebeu subitamente que a princesa índia devia estar na cabeça da menina desde cedo, quando ele contara a história. – Querida, ela não teve de morrer. Ela escolheu morrer para salvar seu povo. Eles estavam doentes e ela queria que se curassem. Houve um silêncio e Mack soube que outra pergunta estava se formando no escuro. – Isso aconteceu mesmo? – A pergunta agora vinha de Kate, obviamente interessada na conversa. Mack pensou antes de falar. – Não sei, Kate. É uma lenda, e às vezes as lendas são histórias que ensinam uma lição. – Então não aconteceu de verdade? – perguntou Missy. – Pode ter acontecido, querida. Às vezes as lendas nascem de histórias verdadeiras, coisas que aconteceram de fato. De novo silêncio, e depois: – Então a morte de Jesus é uma lenda? Mack podia ouvir as engrenagens girando na mente de Kate. – Não, querida, a história de Jesus é verdadeira. E sabe de uma coisa? Acho que a história da princesa índia provavelmente também é. Mack esperou enquanto suas filhas processavam os pensamentos. Missy foi a próxima a perguntar: – O Grande Espírito é outro nome para Deus? Você sabe, o pai de Jesus? Mack sorriu no escuro. Obviamente as orações noturnas de Nan estavam surtindo efeito. – Acho que sim. É um bom nome para Deus, porque ele é um espírito e é grande. – Então por que ele é tão mau? Ah, ali estava a pergunta que viera crescendo na cabecinha da filha. – Como assim,Missy? – Bom, o Grande Espírito fez a princesa pular do penhasco e fez Jesus morrer numa cruz. Isso parece muito mau. Mack ficou travado. Não sabia como responder.Com seis anos e meio, Missy estava fazendo perguntas com as quais pessoas sábias haviam lutado durante séculos. – Querida, Jesus não achava que o pai dele era mau.Achava que o pai era cheio de amor e que o amava muito. O pai dele não o fez morrer. Jesus escolheu morrer porque ele e o pai amavam muito você, eu e todas as pessoas. Ele nos salvou da doença, como a princesa. Agora veio o silêncio mais longo e Mack começou a imaginar que a menina teria caído no sono. Quando ia se inclinar para lhes dar um beijo, uma vozinha com um tremor perceptível rompeu a quietude. – Papai? – Sim, querida? – Algum dia eu vou ter de pular de um penhasco? O coração de Mack doeu quando ele entendeu a verdadeira questão. Abraçou a menininha e a apertou. Com a voz um pouco mais rouca do que o usual, respondeu gentilmente: – Não, querida. Nunca vou pedir para você pular de um penhasco, nunca, nunca, jamais. – Então Deus vai me pedir para pular de um penhasco? – Não,Missy. Ele nunca pediria que você fizesse uma coisa dessas. Ela se aninhou mais fundo em seus braços. – Está bem! Me dá um abraço apertado. Boa noite, papai. Eu te amo. – E apagou, caindo num sono profundo embalado por sonhos bons e doces. Depois de alguns minutos, Mack a colocou suavemente no saco de dormir. – Você está bem, Kate? – sussurrou enquanto lhe dava um beijo. – Estou – veio a resposta murmurada. – Pai? – O que é, querida? – A Missy faz perguntas boas, não é? – Com certeza. É uma menininha especial. Você também é, só que não é mais tão pequenininha. Agora durma, temos um grande dia pela frente. Lindos sonhos, querida. – Você também, pai. Te amo demais! – Te amo também, de todo o coração. Boa noite. Mack fechou o zíper do reboque ao sair, assoou o nariz e enxugou as lágrimas que desciam pelo rosto. Fez uma oração silenciosa de agradecimento a Deus e foi coar um pouco de café.



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